Educação Global
Brasil é o 5º país que mais exporta talentos para empresas globais, e escolas começam a se adaptar
Relatório internacional aponta crescimento de 24% nas contratações de brasileiros por companhias estrangeiras em 2024; geração Z lidera expansão

As contratações de profissionais remotos do Brasil por empresas estrangeiras cresceram 24% em 2024. O país ocupa hoje o 5º lugar no ranking global de nações com mais profissionais contratados por companhias internacionais, subindo uma posição em relação ao ano anterior. Os dados são do relatório anual da Deel, plataforma especializada em contratações globais, e foram publicados pela Forbes Brasil em fevereiro deste ano.
O crescimento é ainda mais expressivo entre os jovens: as contratações de brasileiros da Geração Z por empresas internacionais avançaram 98% no mesmo período, quase o dobro em um único ano. O fenômeno coloca o Brasil em posição inédita no mercado global de talentos. E começa a pressionar um setor que historicamente demorou a reagir: a educação básica.
Demanda existe. Preparo, nem sempre
O interesse dos jovens brasileiros pelo exterior não é novo. Pesquisa da BMI, organizadora da feira Salão do Estudante, ouviu 160 mil pessoas entre 2019 e 2023 e mostrou que sete em cada dez brasileiras têm interesse em cursar graduação ou pós-graduação fora do país. Quase metade ainda estava no ensino médio.
Mas o desejo esbarra num preparo que raramente o acompanha. Universidades americanas, britânicas e canadenses não analisam apenas notas, exigem experiências práticas, fluência no idioma e um currículo de habilidades construído ao longo de anos. O problema é que a maioria dos jovens e famílias percebem isso tarde. Quando entendem o que precisam construir, o ensino médio já acabou.
Escola em Cuiabá responde à demanda
É nesse contexto que modelos de dupla diplomação ganham espaço no Brasil. O aluno cursa simultaneamente o ensino médio brasileiro e um currículo internacional, saindo com dois diplomas. O modelo funciona de forma integrada à grade curricular, permitindo que o estudante desenvolva as disciplinas americanas sem sobrecarregar sua rotina local. Com a dupla diplomação, o aluno amplia suas possibilidades de candidatura internacional, podendo utilizar a conclusão do ensino médio de forma mais estratégica para cada universidade e processo seletivo, o que também favorece oportunidades acadêmicas e bolsas de estudo.
Em Mato Grosso, o Colégio Unicus, escola que completa 20 anos neste ano, anuncia a abertura do ensino médio com dupla diplomação em parceria com a Washington Academy, instituição americana fundada há mais de 230 anos no estado do Maine. Será a primeira escola do estado a oferecer o modelo.
Além da dupla diplomação, a escola prevê programas anuais de imersão internacional. Um deles é realizado no Space Center Houston, no Texas, complexo educacional ligado ao Johnson Space Center, principal centro da NASA para treinamento de astronautas e controle de missões espaciais tripuladas.
Quem conduz os alunos nessa experiência é Paula Carvalho, a Gestora Family Engagement do departamento internacional do Unicus. Natural de Londrina, com MBA em Gestão Estratégica de Negócios pela USP e 15 anos de atuação em educação internacional, Paula cursou o último ano do ensino médio nos Estados Unidos aos 17 anos, experiência que, segundo ela, transformou sua visão de mundo. É a primeira monitora certificada da MultExperience no Mato Grosso e detém certificação oficial da NASA, conquistada dentro do próprio complexo do Johnson Space Center.
O programa acontece ao longo de cinco dias de imersão intensiva, estruturados em missões progressivas que envolvem construção e lançamento de foguetes, robótica, criogenia, simulações inspiradas na Estação Espacial Internacional em realidade virtual, entre outras atividades. Durante a semana, os estudantes também participam de sessões e interações com profissionais ligados ao ecossistema da NASA, incluindo astronautas e engenheiros, ampliando a conexão com experiências reais da exploração espacial e da inovação tecnológica. A programação se encerra com uma cerimônia oficial de graduação e entrega do certificado da Space Center University.
O que torna essa experiência tão relevante vai muito além do conteúdo espacial. O programa insere os estudantes em um ambiente de alta performance, onde liderança, comunicação, trabalho em equipe, pensamento crítico e tomada de decisão sob pressão são desenvolvidos na prática, competências altamente valorizadas por universidades e organizações internacionais.
Ao longo da imersão, os alunos enfrentam desafios inspirados em missões reais, assumindo responsabilidades estratégicas e entendendo o impacto de cada escolha, inclusive na gestão de um orçamento simulado de 600 milhões de dólares. Mais do que uma experiência acadêmica, é uma vivência que desenvolve maturidade, visão global e protagonismo.
"A NASA vai muito além de foguetes e astronautas. Quando falamos no ecossistema da instituição, falamos de um ambiente onde diferentes áreas do conhecimento, como ciência, tecnologia, medicina, engenharia, liderança e criatividade, entre tantas outras, trabalham de forma integrada para solucionar desafios reais", diz Paula.
O calendário internacional prevê ainda imersões anuais no Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia. Ao concluir o 9º ano, os alunos podem participar de uma imersão de 40 dias na Nova Zelândia. "Todo aluno que tem a oportunidade de participar de uma experiência como essa, volta transformado. A família percebe, o professor percebe, o próprio aluno percebe", completa.

